“A VERDADE SEM CENSURA” LIVRO DE SARGENTO REGINA É UM TIRO NA INTOLERÂNCIA

Sargento Regina enfrentou muitos desafios em toda a sua vida, especialmente por assumir causas consideradas impossíveis dentro de um sistema arcaico e autoritário. Quando foi expulsa dos quadros da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, no dia de seu aniversário, em 12 de setembro de 2008, Sargento Regina tinha 19 anos de serviços prestados à corporação e à sociedade em geral, não apenas na luta incansável pela melhoria da qualidade de vida e profissional de sua categoria, mas também por uma segurança pública efetiva ao cidadão. Porém, após uma decisão do Superior Tribunal de Justiça em 27 de julho de 2010, Sargento Regina foi reintegrada aos quadros da PM/RN e de lá para cá muitas coisas aconteceram em sua vida.

“Por lutar por uma polícia cidadã, por um policial bem remunerado com condições dignas mínimas para poder trabalhar, com a boa formação e com qualificação adequada pra melhor atender. Isso já é o suficiente para incomodar aqueles que torcem e trabalham para manter esse modelo arcaico e falido da segurança pública”, comentou Sargento Regina. 

Quando estreou na política natalense em 2008, Mary Regina dos Santos Costa (Sargento Regina) foi eleita com mais de cinco mil votos se tornando a primeira e única parlamentar LGBT+ da história da cidade do Natal. Afastada da política partidária do RN, Sargento Regina está residindo no vizinho estado da Paraíba, onde está lançando seu primeiro livro “A Verdade Sem Censura” aonde revelará nas 160 páginas da obra literária, os bastidores de perseguições implacáveis que sofreu dentro da PM por ser lésbica assumida. A coragem de Sargento Regina ajudou a quebrar preconceitos, incentivando a muitos os que ainda não encontraram a coragem para se expor. 

“Dizer toda verdade requer atitude e atualmente exercer a coragem diante das constantes ameaças aos nossos direitos enquanto pessoa LGBTQIA+ deve vim sem qualquer censura”, disse ela. Conheça mais nessa entrevista concedida com EXCLUSIVIDADE ao jornalista Genilson Souto. 

JORNAL DO ESTADO: EM SEU PRIMEIRO LIVRO “A VERDADE SEM CENSURA”, QUE MENSAGEM SARGENTO REGINA QUER DEIXAR PARA SEUS LEITORES?

SARGENTO REGINA: O principal objetivo do livro é mostrar os desafios que enfrenta uma pessoa LGBTQIA+ no sistema mais conservador que existe, O militarismo. Ao mesmo tempo o livro pretende ao mostrar todas as superações por mim enfrentadas, não apenas na policia militar mais em outros espaços de poder. Ser a referência positiva, e que outras mulheres lésbicas possam se identificar com nossa história e criarem também suas defesas. Nesse momento em que vivemos o livro chega como um ato revolucionário contra tudo que está tentando nos castrar. 

JORNAL DO ESTADO: PORQUE “A VERDADE SEM CENSURA”?

SARGENTO REGINA: O Título foi muito bem pensado em concordância com a editora. Afinal de contas estamos falando de fatos reais que ocorreram na minha trajetória de vida e que foi por muitas vezes deturpado por opositores políticos e pessoas homofóbicas e intolerantes. Dizer toda verdade requer atitude e atualmente exercer a coragem diante das constantes ameaças aos nossos direitos enquanto pessoa LGBTQIA+ deve vim sem qualquer censura. Não deixa de ser um enfrentamento a um sistema que viola diariamente nossos direitos. Um grito de liberdade, um basta ao preconceito e a discriminação. 

JORNAL DO ESTADO: QUANTO TEMPO VOCÊ PRECISOU PARA ESCREVER SEU PRIMEIRO LIVRO? 

SARGENTO REGINA: Na verdade eu vinha escrevendo por partes, por várias etapas mencionadas. E depois resolvi juntar tudo.

JORNAL DO ESTADO: O LIVRO VEM COM FOTOS, 

DOCUMENTOS EXCLUSIVOS, DEPOIMENTOS?

SARGENTO REGINA: O livro é minha autobiografia escrita por mim mesma, tentei ser o mais objetiva, realista, e verdadeira possível; o livro traz fotos, matérias digitalizadas, e traz a verdade de muitos fatos vividos por mim que precisavam ser contados.

JORNAL DO ESTADO: QUANTAS PÁGINAS O LIVRO TERÁ E QUEM TE APOIOU PARA A REALIZAÇÃO DESSA OBRA LITERÁRIA?

SARGENTO REGINA: O livro vem com 160 páginas. Anexos de fotos e matérias digitalizadas, também vêm com uma entrevista que concedi a jornalista Andreia Pinho. O principal apoio foi de minha companheira Juliane e de meus filhos Julian e Isadora (que viveram tudo isso ao meu lado), minha mãe de santo Lya Lúcia Omidewá que sempre me incentivaram a contar minha história, minha irmã Fátima, de minha amiga e ex assessora de imprensa do mandato de vereadora , a jornalista Andréia Pinho, e da promotora de justiça Dra. Érica Canuto que gentilmente aceitou o convite para prefaciar o livro. Amigos e apoiadores de nossa causa.

JORNAL DO ESTADO: O LIVRO VIRÁ COM TRECHOS DE ACONTECIMENTOS DA SUA ÉPOCA COMO MILITAR E POLÍTICA EM NATAL QUE AINDA SÃO INÉDITOS? 

SARGENTO REGINA: Eu sempre disse que minha vida era um livro aberto, quem realmente me conhece sabe que nunca fui mulher de subterfúgios, sempre fiz questão de expor minhas opiniões e ideias, paguei um altíssimo preço por ser assim. Mais me sinto feliz em poder exercer ser eu mesma. E o livro mostra essa pessoa policial militar (antifascismo), defensora dos direitos humanos, mulher, Lésbica, candomblecista, juremeira, política, gestora pública. 

Muitas verdades serão reveladas.

JORNAL DO ESTADO: FALE-NOS UM POUCO DE SUA TRAJETÓRIA DE VIDA NO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE?

SARGENTO REGINA: Eu sou natural de Mossoró RN, venho de uma família humilde, porém muito honrada. Casei cedo, tive 02 filhos, e me separei. Criei meus filhos com muita força, coragem e trabalhei muito. E cheguei a assumir várias gestões. Policial militar fui presidente de uma associação de policiais, vereadora de Natal, coordenadora estadual de igualdade racial. Cada etapa dessas foi de imenso desafio na minha vida. 

JORNAL DO ESTADO: COMO FOI SEU INGRESSO NA PM E POR QUANTO TEMPO PERMANECEU NA CORPORAÇÃO?

SARGENTO REGINA: Entrei na PM em 1990. Sou da primeira turma de policiais femininas do estado, turma de pioneiras potiguares. 

JORNAL DO ESTADO: QUANDO FOI O SEU MELHOR MOMENTO NA GLORIOSA INSTITUIÇÃO?

SARGENTO REGINA: Quando comandei a frente do movimento paredista da PM em 2006 e consegui levar 95% da tropa a paralisar suas atividades.

JORNAL DO ESTADO: E O PIOR? 

SARGENTO REGINA: Quando fui desligada do meu curso de soldado em 1990 no centro de formação (CEFAP) por ser lésbica declarada, faltando apenas 15 dias pra formatura. 

JORNAL DO ESTADO: POR QUÊ?

SARGENTO REGINA: A dor da injustiça.

JORNAL DO ESTADO: VOCÊ FOI ELEITA VEREADORA POR NATAL DEPOIS DE FICAR CONHECIDA PELA SUA LUTA EM DEFESA DOS SEUS DIREITOS E DOS DIREITOS COLETIVOS. FALE UM POUCO SOBRE ESSE PROCESSO QUE TE PROJETOU PARA A POLÍTICA?

Na verdade nunca ambicione ser política, foi um projeto de um grupo. E no livro eu dedico um capítulo inteiro pra mostrar como tudo isso aconteceu. 

JORNAL DO ESTADO: DESCREVA SUA VIDA POLÍTICA DESDE O INÍCIO ATÉ A SUA DESPEDIDA?

SARGENTO REGINA: Na vida de uma pessoa pública que trabalha a política como ferramenta de transformação nunca existe um ponto final. Porque nunca paramos de defender aquilo que acreditamos, mesmo que não estejamos em espaço de poder de decisão. 

JORNAL DO ESTADO: ENQUANTO POLÍTICA, QUE BANDEIRAS VOCÊ DEFENDEU COM MAIS AUSTERIDADE?

SARGENTO REGINA: Segurança pública, cidadania, direitos humanos e diversidade. 

JORNAL DO ESTADO: QUE CAUSA VOCÊ DEFENDEU QUE MAIS LHE TROUXE INIMIGOS?

SARGENTO REGINA: Infelizmente para adquirimos desafetos basta que a gente seja o contraditório. Tive muitos desafetos com poder que me desejaram destruir enquanto pessoa e me desqualificar enquanto figura pública. E tudo por causa das bandeiras que sempre defendi. Mais de todas as verdades que defendi a que me causou mais problemas foi a defesa de minha categoria. Por lutar por uma polícia cidadã, por um policial bem remunerado com condições dignas mínimas para poder trabalhar, com a boa formação e com qualificação adequada pra melhor atender. Isso já é o suficiente para incomodar aqueles que torcem e trabalham para manter esse modelo arcaico e falido da segurança pública. 

JORNAL DO ESTADO: O QUE PENSA SOBRE A GOVERNADORA FÁTIMA BEZERRA?

SARGENTO REGINA: A governadora tem se esforçado pra acertar, tem ampliado setores de direitos, fez ajustes importantes na área da defesa das mulheres, igualdade racial, direitos humanos e diversidade. E isso mostra que ela realmente está tentando ser o diferencial.

Torço pra que ela consiga fazer muito mais. 

JORNAL DO ESTADO: PORQUE VOCÊ FOI MORAR EM OUTRO ESTADO?

SARGENTO REGINA: Resolvi me dedicar ao meu Orixá, e minha Casa de Santo fica em João Pessoa, então resolvi mudar pra aprender e servir melhor ao meu Orixá, aquele que me sustenta nesse mundo tão ingrato e injusto, aquele que está sempre pronto a me confortar. 

A paz que o meu Orixá me traz não tem preço, não é medida.

JORNAL DO ESTADO: COMO É LUTAR PARA SER VOCÊ MESMA?

SARGENTO REGINA: Um desafio diário, principalmente em a sociedade cada vez mais excludente.

JORNAL DO ESTADO: QUE ESCRITORES TE INSPIRAM NO UNIVERSO DA LEITURA?

SARGENTO REGINA: Ilustres best-sellers como José de Sousa Saramago e Federico García Lorca.

JORNAL DO ESTADO: QUANDO SERÁ O LANÇAMENTO DO LIVRO “A VERDADE SEM CENSURA”?

SARGENTO REGINA: Estamos nos organizando pra fazer o lançamento virtual no próximo dia 12 de Setembro, através do Instagram da editora Oiticica. Na oportunidade estaremos vendendo o livro que será enviado autografado. Contaremos com a participação de amigos e apoiadores que irão falar um pouco sobre a temática que estamos abordando. 

JORNAL DO ESTADO: SUAS CONSIDERAÇÕES FINAIS.

SARGENTO REGINA: Gostaria de agradecer a oportunidade de falar um pouco sobre nossa obra, dizer que esperamos contar com a participação de todas as pessoas que sempre acompanharam nosso trabalho, e desejar que nossa história verdadeira sirva de incentivo para outras tantas mulheres. Principalmente aquelas que ainda sofrem caladas em seus ambientes de trabalho, e  especial as operadoras de segurança pública em todas as suas instituições. Gratidão!

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